Quem conheceu Chapecó há cinco ou dez anos e caminha pelo Centro da cidade percebe rapidamente que a paisagem urbana mudou. Onde antes predominavam casas e construções baixas, hoje são erguidos edifícios cada vez mais altos. O que muitas vezes é percebido apenas como sinal de crescimento econômico, no entanto, é resultado de um processo histórico complexo, que envolve decisões políticas, mudanças nas leis urbanísticas e estratégias do mercado imobiliário.
Uma dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Chapecó analisa justamente esse processo. O trabalho “A produção do espaço urbano e a verticalização: uma análise da cidade de Chapecó/SC”, da pesquisadora Taís Schoenberger, com a orientação do professor Ederson Nascimento, investigou como e por que a cidade passou a crescer para cima nas últimas décadas.
A pesquisa partiu de uma questão central: de que forma as transformações econômicas, as legislações urbanísticas e a atuação de diferentes agentes sociais contribuíram para consolidar a verticalização como característica da urbanização de Chapecó. Segundo a autora, compreender esse processo é essencial para entender as dinâmicas atuais da cidade.
A dissertação demonstra que a verticalização não ocorre de forma espontânea. Ela resulta da articulação entre interesses do mercado imobiliário, decisões institucionais e estratégias de valorização da terra urbana, que ao longo do tempo foram moldando a forma como a cidade se expande e se organiza.
Uma cidade que passou a crescer para cima
Chapecó é frequentemente reconhecida como um dos principais polos agroindustriais do Sul do Brasil. O dinamismo econômico e o crescimento populacional da cidade, no entanto, também trouxeram transformações profundas na forma urbana.
Segundo o professor Ederson Nascimento, o tema da verticalização vem sendo estudado na universidade há mais de uma década, dentro de uma linha de pesquisa dedicada a compreender o crescimento urbano e as desigualdades socioespaciais na cidade. “A gente procura entender como uma cidade que apresenta um dinamismo econômico e demográfico bastante grande tem crescido e quais são os desdobramentos dessa dinâmica. Esse crescimento acontece de duas formas principais: pela expansão horizontal, quando a cidade se espalha para novas áreas, e pela verticalização, que é o adensamento por meio de edifícios”, explica ele.
A pesquisa que resultou na dissertação surgiu a partir dessa trajetória de investigação. O professor conta que o primeiro esforço para mapear a verticalização em Chapecó foi realizado em um trabalho de conclusão de curso no curso de Geografia da UFFS, em 2015. O estudo inicial utilizou fotografias aéreas e imagens de satélite para identificar onde e quando os edifícios estavam sendo construídos.
Com o passar dos anos, no entanto, a dinâmica urbana da cidade mudou de forma acelerada. “De 2015 para frente, essa verticalização se tornou ainda mais intensa e marcante. Então surgiu a necessidade de retomar aquela pesquisa inicial, atualizar os dados e aprofundar a análise para compreender melhor o que estava acontecendo”, afirma ele.
Para reconstruir a história da verticalização em Chapecó, a pesquisa utilizou uma metodologia que combina diferentes fontes de dados e técnicas de análise espacial. O trabalho envolveu a análise de imagens aéreas históricas, fotografias, documentos urbanísticos e dados cadastrais, além de entrevistas e trabalho de campo. As imagens de diferentes períodos — 1979, 1988, 1996, 2012 e 2022 — foram analisadas por meio de técnicas de geoprocessamento em ambiente de Sistema de Informações Geográficas.
A partir desse levantamento, a pesquisadora identificou e mapeou todos os edifícios com cinco ou mais pavimentos na cidade. Cada construção foi registrada em um mapa digital com informações como localização, endereço e número de pavimentos. Como revela Taís, esse mapeamento permitiu visualizar como os edifícios foram surgindo ao longo do tempo e como o processo de verticalização se espalhou pelo espaço urbano. “Quando a gente coloca todos esses dados em mapas, é possível ver claramente a expansão do processo. Os primeiros edifícios aparecem concentrados no centro, depois o processo começa a se expandir para outras áreas”, argumenta.
Da concentração no centro à expansão pela cidade
Os resultados da pesquisa mostram que a verticalização em Chapecó começou de forma tímida. Na década de 1970, os edifícios ainda eram poucos e concentrados na área central. Um dos fatores que limitava esse crescimento era a própria legislação urbanística da época. O primeiro plano diretor da cidade, elaborado em 1974, restringia as construções a um número reduzido de pavimentos.
Com mudanças na legislação ao longo dos anos seguintes, no entanto, as regras passaram a permitir construções mais altas. Como explica o professor Ederson, na década de 70 ainda havia poucos prédios e a verticalização era pouco expressiva. “Mas quando começam as mudanças nas regras urbanísticas, especialmente no final daquela década e nos anos seguintes, o número de edifícios aumenta e eles passam a ser cada vez mais altos”, ressalta ele.
Esse processo se intensificou nas décadas seguintes. O Plano Diretor Físico-Territorial de 1990 ampliou o perímetro urbano da cidade e estabeleceu novas diretrizes para o uso do solo, introduzindo parâmetros como índice de aproveitamento, taxa de ocupação e limites de altura das construções. A dissertação revela que, apesar das tentativas de organização do crescimento urbano, o centro continuou concentrando a maior parte dos edifícios. Ao mesmo tempo, bairros periféricos mantiveram uma ocupação predominantemente horizontal, reforçando diferenças espaciais dentro da cidade.
Um dos principais pontos da pesquisa é mostrar que a verticalização não pode ser explicada apenas pelo crescimento econômico da cidade. Segundo o estudo, a expansão dos edifícios resulta da interação entre diferentes agentes sociais, especialmente o mercado imobiliário e o poder público.
Conforme explica o professor, o capital é extremamente importante nesse processo, mas ele não atua sozinho. “Para que os empreendimentos aconteçam, é necessária uma articulação com o poder público, que define as regras urbanísticas e as condições para construção.”
Essa relação entre interesses privados e decisões institucionais aparece de forma recorrente na história da urbanização de Chapecó. “A verticalização é resultado de decisões políticas. Ela depende de leis urbanísticas, de planos diretores e das formas como essas regras são definidas e flexibilizadas ao longo do tempo”, explana ele.
Impactos na paisagem e na vida urbana
Segundo Taís, o trabalho de campo realizado durante a pesquisa também revelou mudanças significativas na paisagem urbana. Em diferentes pontos da cidade, é possível observar o contraste entre edifícios modernos e altos e construções mais antigas ou bairros predominantemente horizontais. “Em alguns lugares, aparece um prédio muito alto no meio de um bairro de casas, criando um contraste muito grande na paisagem urbana”, revela Taís.
Além das mudanças visuais, a verticalização também traz impactos no cotidiano dos moradores. O estudo aponta que a construção de torres muito próximas entre si tem gerado conflitos relacionados à qualidade de vida, como a redução da circulação de ar e da iluminação natural em apartamentos vizinhos, além do aumento da pressão sobre o trânsito e a infraestrutura urbana.
Em alguns casos, de acordo com os pesquisadores, esses conflitos chegaram ao sistema judicial, com moradores questionando projetos imobiliários que alteraram significativamente as condições de moradia em áreas já consolidadas.
A pesquisa mostra que a verticalização se consolidou como uma das principais características da urbanização de Chapecó nas últimas décadas. “Mais do que uma tendência arquitetônica, o fenômeno reflete mudanças profundas na forma como a cidade é produzida e organizada”, destaca a mestre.
Segundo os pesquisadores, ao relacionar crescimento urbano, legislação e mercado imobiliário, o estudo mostra que a forma da cidade é resultado de decisões coletivas e disputas de interesses que se acumulam ao longo do tempo. Para eles, compreender essas dinâmicas é fundamental para pensar o futuro das cidades médias brasileiras. “Em Chapecó, a verticalização continua avançando. As escolhas feitas hoje no planejamento urbano vão definir como será a paisagem e a qualidade de vida da cidade nas próximas décadas”, finaliza Taís.