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Pesquisa da UFFS investiga como pais enfrentam a transição de gênero de filhos adolescentes

Pesquisador abordou o tema em sua dissertação, no âmbito do mestrado em Enfermagem da UFFS – Campus Chapecó

Lilian Simioni - Assessoria de Comunicação do Campus Chapecó — 26 de Maio de 2026 — Atualizado em 26/05/2026

Pesquisa da UFFS investiga como pais enfrentam a transição de gênero de filhos adolescentes

Augusto, agora mestre em Enfermagem pela UFFS, quer seguir estudando o tema

“Eu lembro que no início das entrevistas, eles vinham com uma postura. Depois eles começavam a se abrir, a contar um pouco mais, a se emocionar durante a entrevista.” A percepção é do enfermeiro e pesquisador Augusto Krindges ao descrever os encontros que deram origem à dissertação de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGEnf) da UFFS – Campus Chapecó. O estudo investigou justamente um grupo ainda pouco explorado nas pesquisas sobre identidade de gênero: homens pais de adolescentes trans.

Intitulada “Homens pais e o cuidado no contexto da incongruência de gênero entre adolescentes”, a pesquisa ouviu 14 pais de diferentes regiões de Santa Catarina. O objetivo foi compreender como esses homens lidam com a descoberta da identidade de gênero dos filhos, como desenvolvem o cuidado dentro das famílias e quais dificuldades enfrentam nesse processo.

Mas o estudo também acabou atravessando a própria trajetória do pesquisador. Homem trans, Augusto relata que foi durante a aproximação acadêmica com o tema, ainda durante a graduação, que passou a compreender a própria identidade. “Quanto mais pesquisava e me aproximava da temática, mais me convencia da minha identidade”, frisa o enfermeiro.

Nascido em São Bernardino, no Oeste catarinense, Augusto conta que chegou a Chapecó para estudar enfermagem sem imaginar que a universidade também se tornaria parte central do seu processo de autoconhecimento. “Precisei desse trabalho para descobrir quem eu realmente sou”, afirma ele.

A relação pessoal com o tema influenciou diretamente a escolha metodológica da pesquisa. Segundo Augusto, ainda no TCC da graduação ele percebeu que mães apareciam de forma recorrente nos relatos sobre acolhimento de adolescentes trans, enquanto os pais permaneciam quase invisíveis. “Os pais não estavam presentes como o cuidado de pessoas transgêneros, de filhos transgêneros, adolescentes transgêneros e crianças”, destaca.

E foi justamente esse silêncio que chamou a atenção do pesquisador. Ao lado do orientador, o professor Jeferson Santos Araújo, Augusto passou a buscar homens dispostos a falar sobre um assunto que, segundo os próprios pesquisadores, ainda é tratado como tabu dentro das famílias e da sociedade. A divulgação ocorreu por redes sociais, grupos de apoio e pela chamada “técnica bola de neve”, quando um participante indica outro possível entrevistado. Mesmo assim, o acesso não foi simples.

Dos 23 pais inicialmente contatados, apenas 14 aceitaram participar da pesquisa. Segundo Jeferson, a própria recusa já diz muito sobre a sensibilidade do tema. “Esse número de pais que não participaram fala muito sobre como a sociedade trata um tema”, explica.

As entrevistas ocorreram presencialmente e também por telefone, ao longo de diferentes contatos. Segundo Augusto, muitos pais chegavam aos encontros carregando inseguranças, dificuldades emocionais e receios de falar sobre os filhos. “Eu já entendia que esse tema, para esses homens pais, era muito sensível”, conta.

Ao longo das conversas, os pesquisadores observaram mudanças sutis, mas significativas. Alguns homens começavam as entrevistas utilizando pronomes inadequados para se referir aos filhos, mas terminavam a conversa demonstrando maior compreensão sobre identidade de gênero e acolhimento. Em diversos momentos, a pesquisa evidenciou o peso das construções tradicionais de masculinidade sobre a forma como esses pais elaboram o processo de transição dos filhos. Segundo Augusto, muitos demonstravam mais facilidade em aceitar filhos homens trans do que filhas trans. “A fala deles era: agora eu tenho um filho que vai me acompanhar nos jogos de futebol, que vai jogar bola comigo, que vai ir pescar”, relembra o pesquisador. Para ele, o machismo estrutural aparecia de maneira recorrente nos relatos.

Ao mesmo tempo, o estudo identificou que o suporte emocional frequentemente recaía sobre as mães. Segundo Augusto, embora os pais buscassem atendimento psicológico para os filhos, raramente procuravam ajuda para si próprios. “O suporte a eles era encontrado nas suas esposas”, salienta.

Na dissertação, Augusto também descreve que muitos desses homens demonstravam dificuldade de acessar emoções e fragilidades por terem sido formados dentro de uma lógica rígida de masculinidade. Em um dos trechos mais pessoais do trabalho, ele utiliza a metáfora da fogueira para falar sobre transformação, cuidado e identidade. “O pai tem camadas que só serão acessadas se ele também transicionar, perder as cascas como as madeiras”, escreveu.

Além das relações familiares, o estudo também aborda os impactos sociais enfrentados pela população trans no Brasil. Conforme a pesquisa, o país lidera há 18 anos o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). A expectativa de vida média dessa população é de apenas 35 anos.

Para o professor Jeferson, a pesquisa procura ampliar o debate para além da dimensão biológica da saúde. Segundo ele, identidade de gênero ainda costuma ser tratada apenas como uma questão individual, quando envolve também aspectos sociais, culturais e familiares. “O assunto parece que é único e exclusivamente biológico, mas envolve questões sociais, questões culturais”, ressalta.

Os pesquisadores defendem que o trabalho pode contribuir para a formação de profissionais da saúde mais preparados para acolher pessoas trans e suas famílias. Augusto relata que hoje tenta levar essa discussão para sua prática profissional cotidiana como enfermeiro de uma Unidade de Pronto Atendimento de Chapecó. “Quando eu vejo que existe uma pessoa trans, eu já vou e oriento a minha equipe”, conta. “Isso também é uma forma de cuidar.”

Ao final da dissertação, Augusto dedica o trabalho “a todos os pais que exercem a paternidade afetiva, social e política, que lutam pelo direito dos(as) seus/suas filhos(as) trans existirem e resistirem”. E a pesquisa não deve parar na dissertação. Augusto já planeja um projeto para tentar um processo seletivo em um doutorado. A intenção é seguir com o tema, mas atuar, dessa vez, com profissionais da saúde.

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