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Debate sobre saúde em territórios rurais mobiliza grupo de pesquisadores

Desafios, que envolvem o acesso e expõem desigualdades estruturais, serão discutidos em evento na UFFS – Campus Chapecó

Lilian Simioni - Assessoria de Comunicação do Campus Chapecó — 04 de Março de 2026 — Atualizado em 17/03/2026

Debate sobre saúde em territórios rurais mobiliza grupo de pesquisadores

Estudos e experiências no campo da saúde coletiva indicam que discutir saúde no Brasil implica no enfrentamento de desigualdades estruturais. Quando o foco recai sobre os territórios rurais, essas diferenças se tornam ainda mais evidentes: barreiras geográficas, menor oferta de serviços especializados, dificuldades de transporte e riscos ocupacionais próprios do trabalho agrícola.

No Oeste catarinense, tendo Chapecó como referência regional, a presença rural é intensa.

É nesse contexto que a UFFS – Campus Chapecó promove, de 16 a 18 de abril, o “I Simpósio Regional sobre Saúde em Territórios Rurais: Saúde que nasce no campo, cuidado que transforma territórios”. A proposta do encontro é reunir pesquisadores, trabalhadores do campo, estudantes, movimentos sociais e gestores para aprofundar debates sobre qualidade de vida, doenças e agravos não transmissíveis, sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis, gênero e envelhecimento no meio rural, além de métodos de análise de dados aplicados a contextos de vulnerabilidade. A expectativa é que esta seja a primeira edição de um evento permanente, fortalecendo o debate regional e contribuindo para a consolidação da temática como eixo estruturante da formação e da pesquisa na universidade.

Relevância

Especialmente a suinocultura e a avicultura, atividades que dão base à economia regional, além da fruticultura, por exemplo, moldam o território, a economia e as condições de vida da população. Conforme a professora do curso de Medicina da UFFS – Campus Chapecó, Tânia Araujo, esse contexto também influencia os agravos de saúde mais prevalentes e as formas de acesso ao cuidado.

Ela aponta que, entre os principais desafios enfrentados pela população rural estão o acesso limitado a serviços especializados, as distâncias entre comunidades e unidades de saúde, além dos riscos associados ao trabalho agrícola. Soma-se a isso, conforme a professora, o crescimento de problemas de saúde mental, que nem sempre são identificados precocemente. Segundo ela, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) disponha de Unidades Básicas, hospitais e equipamentos de referência que atendem formalmente toda a população, as especificidades do campo nem sempre são plenamente contempladas.

De acordo com Tânia, para verificar estas especificidades, um projeto financiado vem sendo desenvolvido pelo grupo da saúde coletiva na Instituição. De abrangência nacional, o projeto chamado “Saúde nas Fronteiras da Agricultura e Tradição: Inquérito de Saúde em Populações Rurais Brasileiras”, visa a aplicação de um inquérito sobre as condições de saúde da população rural. Nisso estão contemplados pontos como a alimentação saudável, o uso de agrotóxicos e a presença de doenças crônicas como câncer e hipertensão, além de questões de saúde mental. A pesquisa envolverá o trabalho de 24 pesquisadores de cinco instituições de ensino do país. Conforme a professora, o projeto foi desenhado para ser multicêntrico e abranger a diversidade da população rural brasileira. Outro estudo conduzido pelo mesmo grupo analisa fatores associados ao risco de suicídio em mulheres no pós-parto no Oeste catarinense, considerando também diferenças entre contextos urbanos e rurais.

A também professora do curso de Medicina área da saúde coletiva, Maira Rossetto, aponta que a dificuldade de deslocamento da população rural, por exemplo, pode comprometer o acompanhamento contínuo de doenças crônicas e agravar quadros clínicos que poderiam ser manejados de forma preventiva. Nesse contexto, profissionais da saúde pública utilizam o conceito de “demanda reprimida” para se referirem a necessidades existentes que não chegam a ser plenamente identificadas ou atendidas.

De acordo com ela, a discussão sobre saúde em territórios rurais também se conecta às iniquidades sociais em saúde, ou seja, às diferenças sistemáticas e evitáveis que atingem populações com menor renda, menor escolaridade e maior vulnerabilidade ocupacional. Ainda que o país possua políticas específicas, como a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA), além de diretrizes voltadas a povos indígenas e quilombolas, a professora explica que parte significativa da população rural não se enquadra nessas categorias, o que pode resultar em lacunas na organização e no financiamento da assistência.

Para as professoras, é fundamental considerar a multiplicidade de fatores envolvidos para compreender esses desafios. Elas citam que doenças crônicas, violências e sofrimento psíquico são fenômenos multifatoriais, inclusive perpassados por condições sociais, econômicas e territoriais.

Segundo a professora Tânia, ampliar a visibilidade das especificidades das pessoas que vivem no campo é fundamental para enfrentar desigualdades e qualificar o cuidado. Ela aponta que outro desafio central é articular políticas agrícolas, ambientais e de saúde, uma vez que pensar o bem-estar da população rural exige integrar agendas frequentemente tratadas de forma fragmentada.

I Simpósio Regional sobre Saúde em Territórios Rurais: Saúde que nasce no campo, cuidado que transforma territórios

Quando: 16 a 18 de abril de 2026
Local: UFFS – Campus Chapecó
Inscrições: AQUI

Programação

16/04 (quinta-feira)
18h30 às 20h30 - Mesa 1: Qualidade de vida da população rural
Participantes:
- Professora Ana Carine Rolim (UFRN)
- Dalvana Cordazzo (FETRAF)
- Professor Alencar Migliavacca (IFSC)
- Mediação: Professora Tânia Araujo (UFFS)

17/04 (sexta-feira)

9h às 11h - Mesa 2: Doenças e agravos não transmissíveis e acesso aos cuidados no campo: perspectivas para a gestão em saúde
Participantes:
- Professora Lucimare Ferraz (Udesc)
- Rodrigo Preiz (FETRAF)
- Professora Milka Vasquez (UFFS)
- Mediação: Professora Maíra Rossetto (UFFS)

13h às 15h - Mesa 3: Sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis
Participantes:
- Professor Paulo Roger (UFFS)
- Professora Luiza Veloso (UNIVIÇOSA)
- Professor Julian Cassarino (UFFS)
- Mediação: Professora Camila Rossi (UfFS)

15h30 às 17h - Mesa 4: Gênero, envelhecimento e ruralidades: desafios e resistência no campo
Participantes:
- Professora Fátima Ferretti (UNOCHAPECÓ)
- Professora Leila Hildebrand (UFSM)
- Vanessa Corralo (UNOCHAPECÓ)
- Mediação: Professora Rosane Nierotka (UFFS)

18/04 (sábado)
8h30 às 10h - Mesa 5: Modelagem estatística e técnicas de machine learning em contextos de vulnerabilidade
Participantes:
- Professor Vanderlei Carneiro (USP)
- Professora Yanã Tomasi (UFFS)
- Professor Felipe Remondi (UFFS)
- Mediação: Professor Renne Rodrigues (UFFS)

Evento aberto à comunidade acadêmica e regional, incluindo trabalhadores e trabalhadoras do campo, estudantes, profissionais da saúde, integrantes de movimentos sociais e usuários do SUS.

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