As previsões meteorológicas voltam a colocar a Região Sul em atenção. Nesta quarta (19) e quinta-feira (20), uma frente fria associada à formação de um ciclone extratropical deve favorecer tempestades nos três estados do Sul, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O novo sistema chega depois de semanas marcadas por sucessivos episódios de instabilidade, com registros de chuvas intensas, granizo e ventos fortes na região.
A recorrência dos alertas ajuda a dimensionar uma questão que vai além da previsão para os próximos dias: se não é possível impedir a ocorrência de chuvas intensas, secas, ciclones ou outros eventos extremos, é possível preparar os territórios para que eles provoquem menos danos?
Para o professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) - Campus Erechim, João Paulo Peres Bezerra, que pesquisa planejamento ambiental, adaptar um território às mudanças do clima exige uma mudança de perspectiva. Em vez de atuar somente quando o desastre já aconteceu, é preciso conhecer previamente os riscos, identificar vulnerabilidades e incorporar essas informações às decisões sobre o território. O caminho, segundo ele, pode ser sintetizado em quatro ações: diagnosticar, planejar, engajar e agir. “A mudança de perspectiva está justamente em deixar de pensar os eventos extremos apenas a partir da emergência e incorporar os riscos climáticos ao planejamento e à gestão do território. Isso passa por conhecer o que já aconteceu, identificar quem e o que está mais exposto e transformar esse diagnóstico em políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades. Adaptação às mudanças climáticas significa engajar pessoas, famílias, a comunidade, os setores econômicos, a indústria, o agronegócio, a agricultura familiar, as lideranças políticas e as lideranças de bairro”, explica João Paulo, que é Geógrafo e atua no cursos de Geografia, Ciências Biológicas e também no Programa de Pós-Graduação Direitos Humanos da UFFS, na linha de justiça climática.
Para João Paulo, parte desse diagnóstico começa olhando para o passado. “Uma das ferramentas disponíveis para isso são as séries históricas construídas a partir dos registros de desastres já ocorridos, realizados pelos municípios e pela Defesa Civil. Elas permitem identificar quais fenômenos atingiram determinado território, com que frequência e quais tipos de prejuízo provocaram ao longo do tempo”, aponta. O histórico é, portanto, um dos componentes do diagnóstico. “A ele devem ser somadas as características físicas e sociais do território: relevo, solo, rede de drenagem, expansão urbana e características da população. O objetivo é construir uma espécie de fotografia detalhada de cada município e compreender onde estão seus principais riscos e vulnerabilidades. Hoje, parte dessas informações já está disponível em locais como a plataforma Adapta Brasil, que reúne indicadores municipais relacionados a risco, vulnerabilidade, exposição e capacidade adaptativa diante de diferentes ameaças climáticas”, explica.
Mas, segundo o professor, os municípios também precisam produzir informações em maior nível de detalhe. “É muito importante que os municípios construam informações geoespaciais, usem as geotecnologias para olhar o detalhe: o logradouro, a casa, a rua, o bairro”, explica. João Paulo ainda defende que os diagnósticos identifiquem grupos que podem precisar de respostas específicas durante um desastre: idosos, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, crianças e pessoas que dependem de tratamentos contínuos de saúde, por exemplo. “A pergunta deixa de ser somente “onde pode inundar?” e passa a incluir “quem estará nesse lugar quando isso acontecer e de que tipo de assistência precisará? Então, mais que conhecer o espaço físico, é necessário saber, também, quem vive nele. E o mesmo raciocínio vale para a atividade econômica. Determinados setores são mais vulneráveis à seca; outros, ao granizo, à geada, às ondas de frio ou de calor. Conhecer essas diferenças permite planejar respostas específicas para cada território”, comenta.