Economista Marcio Pochmann, da Unicamp, fala sobre a conjuntura nacional na UFFS

A fala foi durante a reunião ordinária do Conselho Universitário
Diretoria de Comunicação
Publicado em: 19 de maio de 2017 11h05min / Atualizado em: 19 de maio de 2017 11h05min

O professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcio Pochmann, esteve na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) na última quinta-feira (18). Pochmann aproveitou a passagem por Chapecó para conhecer a UFFS e, na oportunidade, participou da 4ª sessão ordinária do Conselho Universitário.

Pochmann fez uma explanação contextualizada sobre a economia nacional e a atual conjuntura política do país. Segundo ele, nos anos 2000, o país experimentou um projeto mais democrático de país, com maiores índices de crescimento e maior distribuição de renda. “No entanto, esse crescimento não se mostrou sustentável, uma vez que, com o esvaziamento da indústria e a crescente dependência da importação, o país demonstrou baixa capacidade de continuar crescendo. Isso gerou uma pressão sobre o Estado, que, ao longo dos anos, precisou fazer escolhas, como aumentar a carga tributária. Essas tomadas de posições resultaram em rupturas políticas, é claro. É isso que vemos acontecer”, pontua.

Ainda segundo o economista, o Estado Brasileiro tem características paternalistas. Para exemplificar, Pochmann abordou a questão do Imposto de Renda (IR), que, segundo ele, precisa ser revisto. “Por exemplo, a maior carga tributária do IR incide sobre a faixa populacional que recebe menos. Essa forma de recolhimento tem falhas esdrúxulas. Se pegarmos a saúde, por exemplo: o Estado investe no SUS, que é um sistema belíssimo, porém, quem utiliza o sistema de saúde privada pode utilizar os comprovantes e abater no IR. Ou seja, é ressarcido pela União. Isso não é viável em termos de sustentabilidade econômica, pois é o Estado financiando tanto a saúde pública quanto a privada. Isso acontece com o sistema educacional, que também pode ser abatido como instrução”.

De acordo com Pochmann, para o país sair da recessão são necessárias algumas mudanças. Mas, para isso, segundo ele, é preciso uma base política robusta. “Não somos um país tradicionalmente democrático. Temos coalizões pontuais, como tivemos a maioria para aprovar a Constituição de 1988; ou para eleger determinado governante. Mas essas coalizões são frágeis. Pudemos ver isso ao longo dos anos no país. O Brasil saiu do regime militar para a democracia sem fazer as reformas (política, agrária, etc.) que deveriam ser feitas e há anos estamos inseridos nesse contexto sem uma base política consolidada. A quantidade de partidos políticos existentes é um exemplo claro disso”, comenta.

Pochmann ainda afirmou que o contexto brasileiro favorece a descrença nas instituições: “Ao mesmo tempo em que enfrentamos essa fragilidade, a sociedade também vem mudando. Atualmente as instituições estão passando por períodos de contestação, de descrença mesmo. Essa mudança social abrange as formas de trabalho, de vivência e de relações que não têm mais identidade com as instituições. Isso nos faz pensar: que mecanismos temos para dar voz a essa tangencial necessidade de participação popular?”.

Para finalizar, o economista se diz crente de que há espaço para mudanças. “São nesses momentos nebulosos que outros espaços e sujeitos são fortalecidos. Então, na minha opinião, é preciso que se trabalhe para fortalecer a organização do Estado, pois é ela que dita a roda econômica. É preciso que sejam feitas as coisas que são necessárias para o país retomar um crescimento pujante e, principalmente, sustentável”, finaliza.

Marcio Pochmann

Pochmann possui Graduação em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1984) e doutorado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (1993). Atualmente é professor livre docente da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Social e do Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: emprego, educação, região nordeste, programa bolsa-família e políticas de mercado de trabalho.