Em entrevista, palestrante do III SSA dá prévia sobre "A obesidade sob a ótica da Psicologia"
Conversamos com a psicóloga Núbia Schuck, uma das convidadas do III Simpósio em Saúde e Alimentação, para falar um pouco sobre o que ela trabalha e vai compartilhar durante sua palestra no evento

Publicado em: 09 de julho de 2019 08h07min / Atualizado em: 09 de julho de 2019 09h07min

O III Simpósio em Saúde e Alimentação (III SSA), que acontece nos dias 28 e 29 de agosto, segue com as inscrições abertas. A programação completa do evento, promovido pelo grupo de Pesquisa liderado pela professora da UFFS – Campus Chapecó Margarete Bagatini está no site do III SSA.

Uma das palestrantes será a psicóloga Núbia Schuck, que falará sobre “A obesidade sob a ótica da Psicologia”.  O assunto já é interessante por si, mas para aguçar ainda mais a curiosidade, entrevistamos a psicóloga com algumas “pitadas” do assunto que ela abordará durante o evento.


O que quer dizer que a obesidade é uma doença multifatorial? Como a questão emocional pode impulsionar a doença?

É uma doença multifatorial porque são várias questões que atuam: não podemos dizer que é só uma questão ou só outra. Podem ter questões hereditárias, biológicas, endocrinológicas, culturais, familiares, emocionais e de hábitos. Geralmente é uma mescla de várias coisas, por isso dizemos que é uma doença multifatorial. Sobre o impulsionamento da doença por questões emocionais, podem haver eventos desencadeantes. Geralmente percebemos que quando a pessoa começa a engordar (embora em alguns casos seja desde bebê, e aí há questões, provavelmente, mais biológicas, hereditárias), geralmente tem um evento quando aquilo começou. Por exemplo: adolescência, período de luto, maternidade, divórcio. Geralmente são eventos que vão desencadear uma desorganização na vida da pessoa, na sua alimentação, e aí ela começa a aumentar o peso. Em geral, são situações em que a pessoa está com dificuldade de lidar com algo no seu ciclo de vida, no seu momento. E nem sempre são coisas tidas como grandes estressores. Às vezes são pequenos, mas pequenos entre aspas, porque cada um vai entender e viver a dor do seu jeito. Então, uma pessoa pode passar bem por um processo de divórcio, mas não por um luto. Depende da história de vida, de como ela interpreta os fatos. Pode ser um evento que desencadeia o sobrepeso ou a obesidade. Nem sempre são eventos muito claros, do tipo “foi a partir desse ponto”. Às vezes é uma soma de coisas, a maneira como está vivenciando, algum conflito interno, amoroso, familiar ou uma soma de coisas. Nem sempre é algo muito notável, visível.

 

- Em quais casos o paciente obeso precisa de tratamento psicológico?

Sou suspeita, mas considero que cuidar da saúde mental é para todos. A Psicologia ainda tem um estigma – de que quem procura um psicólogo, de que quem faz terapia é louco, tem algum problema muito grave. Ainda sofremos esse tipo de preconceito. Cuidar do corpo físico parece mais “normal”, mais fácil, digamos. Todo mundo vai ao dentista, ao médico, mas não ao psicólogo. Normalmente sabemos mais ou menos como funciona nosso intestino, da nossa resistência num exercício físico, mas conhecemos pouco do nosso emocional. Essa parte é super importante, é como funcionamos, como reagimos diante dos eventos, qual é nossa ferida, o que nos machuca, o que nos toca. Acho que é importante a todos. E no caso do paciente obeso, penso que todos deveriam fazer um acompanhamento psicológico para se compreender, para entender o porquê ele come, como ele come, quais são os gatilhos, que situação desencadeia, o que está por trás desse comer compulsivo, qual a ferida real da pessoa.

 


Os profissionais da saúde costumam trabalhar conjuntamente nos casos de obesidade?

Vejo que de um tempo para cá os profissionais têm trabalhado bem mais conjuntamente. A clínica onde trabalho, por exemplo, é multiprofissional. Fazemos vários tratamentos para obesidade: cirurgia bariátrica, sutura endoscópica, balão. Trabalhamos numa equipe: cirurgião, nutricionista, eu (psicóloga), uma psiquiatra. Aqui temos essa prática, e acho que hoje muito mais. Os profissionais estão mais atentos ao que é da sua área, quando encaminhar ao psicólogo, ao nutricionista, ao endocrinologista. Por exemplo, o paciente que vem até mim e não tem o acompanhamento de um nutricionista, eu já encaminho; e nutricionistas encaminham, também, para mim, alguns pacientes. Fazemos uma troca e vamos nos auxiliando. Assim, falando a mesma língua, temos mais resultado. Claro que não quebramos o sigilo, mas trocamos informações sobre o funcionamento do paciente.



- Como é, em geral, para os pacientes perceberem e aceitarem que questões emocionais fazem parte da obesidade (e da própria regressão da doença)?

É relativo. Cada um entende de um jeito. Mas ainda encontramos resistência: às vezes a pessoa pergunta “pra quê preciso de um psicólogo”, ela não entende, acha que é só mudar a alimentação ou só fazer um procedimento. Em caso de cirurgia bariátrica, ele necessita dessa avaliação – às vezes com resistência, às vezes, não; depende da trajetória dele, o que já ouviu, o que conhece. Quando o paciente é mais resistente, a gente faz o processo de psicoeducação: explicar o porquê, a importância de entender como ele funciona, seu emocional.

 

 

- Como a própria obesidade afeta negativamente os pacientes (depois da doença instalada)?

Quando o paciente procura o atendimento, ele já tem um desconforto. É porque de alguma maneira aquilo já o incomoda. No geral, o que a gente mais vê é o desconforto com relação à saúde mesmo. Os exames são alterados, se percebe com pouca disposição para brincar com o filho ou para subir um lance de escadas. Ele está perdendo a qualidade de vida: não consegue mais encontrar roupas, sente dor no joelho, no pé… Geralmente os pacientes chegam porque está desconfortável e está sofrendo com aquilo. Embora não seja regra, alguns pacientes também chegam com a autoestima afetada. Não é um consenso, porque nem todo paciente obeso tem problema com sua imagem corporal, com sua vida sexual e ele se gosta daquela maneira. Às vezes a pessoa tem. A gente sabe que existe um padrão de beleza e que, às vezes, quando a pessoa não se enquadra naquilo pode gerar um sofrimento, mas não é exclusividade da pessoa obesa. Não é simples, não é fácil. Tem coisa muito pequena que às vezes é sofrida aos pacientes obesos: cruzar a perna, passar numa catraca de ônibus… que gera mal-estar.

 


- É possível sair do ciclo: questão emocional – comida – obesidade – questão emocional?

Sim, é perfeitamente possível. E o tratamento visa justamente isso: um novo formato de relação do paciente com a alimentação, com a comida, com o seu corpo. Então, mais ou menos como funciona o tratamento psicológico: a gente recebe a pessoa e vai compreender junto com ela, com sua história de vida, com a forma como ela se vê, como ela vê os outros, como ela vê o mundo dela, o que aquele transtorno alimentar ou o sobrepeso tem a ver com a vida dela. Como é o funcionamento da pessoa, de seu emocional, por que ela come, o que leva ela a comer, o que está atrás daquele sintoma. Quando a pessoa vai ao neurologista com dor de cabeça, o médico vai entender o sintoma e tentar entender o que significa. Pode ser um problema estomacal, uma gripe, um tumor. Na obesidade, quando a gente fala da Psicologia, tentamos entender o que está por trás daquele sintoma, o que está sustentando, a serviço de que está a obesidade. Quando a pessoa se compreende, entende seu funcionamento, quais os motivos, os desencadeadores do comportamento, é possível mudar. Então trabalhamos nessa compreensão e na mudança do comportamento alimentar com a parceria dos demais profissionais.

 


- O que vou perguntar não é algo simples, mas como esses pacientes modificam o estado emocional – já que está ligado ao comportamento da pessoa, ao apetite e às escolhas de alimentos?

Entendo que quando a gente trabalha o fundo emocional, consequentemente esse impulsos já diminuem. Quando a pessoa faz o que chamamos de “comer emocional” e trabalhamos as emoções, as motivações e as dificuldades, consequentemente vai acalmar. Mas, ao mesmo tempo, vamos trabalhando o comportamento alimentar. Por exemplo, no caso de compulsão alimentar: geralmente a pessoa oscila entre dois extremos – ou ela faz uma restrição grande ou ela vai para uma compulsão. Vamos trabalhar com o nutricionista uma forma de não fazer tanta restrição.
Mudar o pensamento da pessoa quanto à alimentação, às escolhas. Normalmente quem faz uma restrição muito importante quando se depara com uma “oportunidade” (um buffet, uma festinha, muitas sobremesas) se joga. Mas quando está fazendo uma dieta mais equilibrada, comendo um doce – porque faz parte da rotina alimentar – provavelmente ela não terá uma crise compulsiva.

 


- Qual a abordagem dentro da psicologia é a mais adequada para reverter esses comportamentos que levam à obesidade?

Não considero que tenha uma mais adequada. Na minha prática e na minha vivência, considero que toda abordagem possa auxiliar. Vai depender de como o profissional conduz, de como ele está a par das questões da obesidade e da sua relação com o paciente. Às vezes, pode ser o melhor profissional, mas se não há uma empatia, um vínculo, não flui.

 


- Você acredita que eventos como o III SSA contribuem para que profissionais da saúde conheçam melhor esses aspectos psicológicos ligados à obesidade?

Acho excelente que a Psicologia esteja inserida nesses eventos. A gente sabe e qualquer literatura traz a saúde mental nos processos de obesidade e de emagrecimento. Quanto mais falamos, expomos, mais as pessoas conhecem e vão buscar um tratamento adequado para seu paciente. No meu instagram profissional, @psiconubiaschuck, também divulgo informações sobre essa questão como uma maneira das pessoas conhecerem essa área de atuação da Psicologia.


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